espectroquem cobre o quê, na imprensa portuguesa

Metodologia

espectro mostra, para cada história, quem a cobre e quem a ignora. Isto obriga a duas coisas: agrupar artigos que falam do mesmo acontecimento, e saber a posição editorial de cada órgão. Esta página explica exatamente como ambas são feitas.

1. De onde vêm os títulos

Lemos os feeds RSS públicos que os próprios órgãos publicam — nada de scraping de páginas. Guardamos apenas o título, um resumo até 200 caracteres e a ligação para o artigo original. Nunca reproduzimos o corpo dos artigos nem as imagens que os órgãos lhes juntam — a fotografia que por vezes encabeça uma história é outra coisa, e a secção «De onde vêm as fotografias» diz qual. Qualquer órgão pode pedir a redução (só título) ou remoção, atendida em 48 horas.

O mesmo artigo chega por vezes duas vezes. A RTP publica a mesma peça sob mais do que um caminho de secção — /economia/…/lusa/… — e o endereço fica diferente enquanto o artigo é o mesmo. O identificador verdadeiro está no fim do endereço, e é esse que contamos: dois artigos do mesmo órgão com o mesmo identificador são um só, e fica o primeiro que recolhemos. São quatro casos em 3899 artigos. A regra lê o endereço e nunca o texto, para não haver maneira de esconder por parecença duas notícias que sejam mesmo diferentes.

Tem um custo e é melhor dizê-lo: em dois dos quatro casos o segundo endereço trazia o título já corrigido pela redação, e ficar com o primeiro é ficar com a versão anterior — num deles a diferença é uma gralha, no outro muda o sentido da frase. É a ponta visível de uma falha maior, e essa vale para todos os órgãos: quando uma redação corrige o título sem mudar o endereço, não damos por isso, porque só voltamos a olhar para artigos novos.

2. Como se formam as histórias

Um modelo de semelhança de texto agrupa artigos que descrevem o mesmo acontecimento numa janela de 72 horas. O sistema é afinado para preferir não juntar na dúvida: um agrupamento errado corrompe a barra; um agrupamento em falta apenas duplica uma história. Correções manuais ficam registadas no registo público de correções, entrada a entrada, com o motivo de cada uma.

Há duas maneiras de dois artigos ficarem juntos, e nenhuma delas é uma média das duas. Ou o texto é muito parecido e as publicações estão a menos de seis horas; ou o texto é um pouco menos parecido, as publicações estão a menos de dezoito horas e os dois artigos partilham detalhes concretos suficientes — números com unidade, nomes próprios, siglas, expressões de duas ou três palavras que quase mais ninguém usa. Cada detalhe pesa pela raridade: uma palavra que aparece em milhares de artigos não prova nada, uma que aparece em cinco prova muito.

A segunda porta existe porque a primeira falha num caso que é precisamente o que este site se propõe mostrar. No dia 4 de agosto de 2026 a Renascença escreveu «Lucros dos maiores bancos recuam 70 milhões até junho», a RTP escreveu «Lucros dos principais bancos caem 3,4%» e o Esquerda.net escreveu «Bancos lucram 14 milhões por dia à conta dos clientes». É a mesma divulgação de resultados com o enquadramento invertido, e por vocabulário os títulos quase não se tocam. Ficavam em histórias separadas — que é o mesmo que dizer que a barra que mostrava a diferença de enquadramento nunca chegava a existir.

3. O que entra na página principal

A lista principal só mostra histórias cobertas por dois ou mais órgãos. Um site cuja pergunta é “quem cobriu isto?” não pode abrir com algo que não tem comparação possível. Há também uma razão de volume: um único órgão pode publicar mais de dois terços de tudo o que recolhemos numa semana, e sem esta regra a página principal seria o fio de um só jornal com o trabalho dos outros enterrado por baixo.

O que fica de fora não desaparece: é publicado em “saiu num órgão só”, no fim da mesma página, com um limite de duas histórias por órgão para que a redação com mais ritmo não encha também essa lista. Dentro de cada história, os artigos aparecem agrupados por órgão — o último de cada um à vista, os anteriores dobrados —, porque contamos órgãos, não artigos, e a página deve mostrar o mesmo que a barra conta.

A ordem da lista principal é o número de órgãos, com o peso a cair ao longo do dia seguinte à última publicação. Não há intervenção editorial na ordenação.

4. De onde vem o assunto

Cada linha da lista traz um assunto — Política, Economia, Sociedade, Mundo, Regiões. Não é nosso: é a etiqueta que a própria redação pôs no artigo. Vem de dois sítios, ambos publicados pelos órgãos. O primeiro é o feed por onde o artigo chegou, porque quem publica um feed só de economia já disse o que ali vai. O segundo é a etiqueta que muitas redações põem em cada artigo, e é essa que resolve o caso mais frequente: a maior parte dos artigos chega pelo feed principal do jornal, que é a primeira página da redação e não é assunto nenhum.

Traduzimos só as etiquetas de uma lista fixa, e comparando a etiqueta inteira — nunca procurando palavras lá dentro. Opinião Pública é sondagens, não é opinião, e um sistema que fosse à procura da palavra escondia essa notícia. O que não está na lista fica de fora sem substituto: não abrimos o artigo para lhe achar um assunto, nem o deduzimos do título. Isso seria classificar conteúdo, que é exatamente o que este site não faz.

Daí haver histórias sem assunto nenhum, e ficarem assim. Também não há aqui secção de desporto nem de cultura, e são essas as duas etiquetas mais comuns que deitamos fora — é a lacuna conhecida desta regra, e é preferível a arrumar as notícias por gavetas que a imprensa não usou. Nomes de sítios e de países também não são assuntos: Algarve diz onde, não sobre o quê.

A mesma etiqueta serve a regra do fim desta página: um artigo que o próprio órgão marca como opinião ou crónica é guardado — para não voltar a ser considerado a cada recolha, e para que a conta seja auditável — mas nunca chega a ser história nem entra em barra nenhuma. Até aqui isso conseguia-se não recolhendo os feeds de opinião, o que deixava passar a coluna publicada no meio do feed principal, que é onde a maior parte dela sai.

5. Histórias relacionadas

No fim de uma história pode aparecer uma lista curta de outras. A ligação é feita por vocabulário: os títulos dos artigos de cada história são reduzidos às suas raízes — o dicionário português do Postgres trata disso — e comparamos os dois conjuntos. Ficam de fora as palavras com menos de quatro letras e as que aparecem em mais de um décimo das histórias recentes, porque “governo” ou “milhões” aproximam tudo de tudo.

O resultado é uma proporção, não uma contagem: termos em comum a dividir pela média geométrica dos dois vocabulários. Uma contagem simples poria no topo as histórias com mais artigos, que é a mesma distorção de volume que a regra dos dois órgãos existe para corrigir. Exigimos pelo menos quatro termos em comum e uma proporção acima de 0,18, e contamos só os vinte artigos mais recentes de cada história — uma história não fica mais relacionada por ser atualizada mais vezes.

Isto mede palavras, não sentido. Ninguém leu as duas histórias para confirmar que se relacionam, e o método não distingue duas notícias sobre o mesmo incêndio de duas notícias que por acaso usam as mesmas palavras. É conservador de propósito: abaixo daqueles limites não mostramos nada, e é perfeitamente normal uma história não ter relacionadas nenhumas.

6. A pesquisa

A pesquisa procura nos títulos dos artigos, não no texto das notícias, que não guardamos. Os acentos são ignorados dos dois lados: habitaçãohabitacao dão o mesmo resultado, tal como incêndioincendio. Escrever sem acentos é o normal num telemóvel, e uma página vazia leria-se como “ninguém cobriu isto” quando o problema era só um til.

Os resultados são histórias, não artigos, e a ordem pergunta que parte da história é sobre o termo: artigos que casam a dividir pelos artigos da história, multiplicado pelo logaritmo do número de órgãos. A primeira metade é a relevância, a segunda é o peso da história — e são órgãos, não artigos, pela mesma razão de sempre. Um exemplo real desta base de dados: procurar habitação devolve também o incêndio de Valpaços, porque um dos títulos fala de oito casas de primeira ou segunda habitação. É um resultado legítimo, mas fica em segundo, atrás da história que é mesmo sobre habitação. Cada resultado mostra o título onde a palavra foi encontrada, para se perceber porque ali está.

7. O que a barra significa

A barra conta órgãos, nunca avalia artigos. Se 12 órgãos cobrem uma história — 3 classificados à esquerda, 5 ao centro, 2 à direita e 2 sem classificação — a barra mostra exatamente isso. Nenhum artigo individual é rotulado de verdadeiro, falso ou enviesado.

A barra desenha sempre as cinco posições. O que muda com o espaço é a legenda ao lado dela: nas listas — página principal, secções, pesquisa, blindspots — as cinco posições aparecem agrupadas em três lados, com a centro-esquerda a contar como esquerda e a centro-direita como direita, mais os órgãos sem classificação à parte. Numa linha de cartão, seis posições escritas por extenso não cabem e empurrariam a própria barra para baixo. Na página da história aparecem as cinco, uma a uma, cada uma com o seu número. É a mesma contagem com grão diferente — a lista nunca mostra um número que a página da história contradiga.

8. Um órgão não é uma redação

A barra conta órgãos, e em Portugal isso deixa uma pergunta por responder: quantas redações diferentes escreveram de facto a notícia. Uma parte grande do que parece cobertura independente é um despacho de agência a sair sob logótipos diferentes — a mesma frase, no mesmo minuto, em onze cabeçalhos. 11 órgãos é verdade e engana ao mesmo tempo. Por isso, quando os dois números não coincidem, a linha de contagens mostra os dois: 11 órgãos · 10 redações. Quando coincidem, não há segundo número para mostrar e não se mostra nenhum.

Os dois lado a lado, e a barra fica como está. Colapsá-la faria todos os números do site depender de um detetor cuja precisão ainda não foi medida sobre histórias agrupadas a sério, e mudaria em silêncio o que a barra significa: um leitor que abrisse a história veria onze manchetes e uma barra a dizer dez. É reversível de propósito. No dia em que o detetor estiver medido acima de 95% de precisão em dados reais, promover redações a número principal é uma linha de código — e queremos ganhar esse direito, não presumi-lo.

A Lusa não é ingerida. Os feeds da agência são um produto pago por subscrição, por isso a Lusa tem zero feeds e zero artigos aqui, e não existe original contra o qual comparar. Tudo o que se segue é órgão contra órgão — dois cabeçalhos a publicar o mesmo texto — e o sistema nunca afirma de quem era o texto.

O primeiro sinal é o título. Comparam-se títulos normalizados — minúsculas, sem acentos, sem pontuação — e conta como igual quando um contém o outro, porque os órgãos cortam e esticam o princípio da mesma manchete: “Preventiva” contra “Prisão preventiva”, “Montenegro” contra “Luís Montenegro”. O rótulo curto que a redação põe à frente do seu próprio título (“Médio Oriente:”, “Incêndios.”) é retirado antes da comparação. O mínimo são 40 caracteres: abaixo disso a regra deixaria de casar despachos e passaria a casar frases feitas.

O segundo sinal é o lead, os primeiros 52 caracteres depois da mesma normalização. Só 22% dos artigos trazem lead — 867 em 3899 — por isso é um sinal estruturalmente fino, e fica na mesma porque apanha aquilo que o título não apanha: o caso em que a redação reescreveu a manchete e publicou o lead da agência intacto. Os 52 foram varridos de 20 a 150: a contagem não se mexe entre 49 e 54, aos 55 perde-se um par verdadeiro (uma redação regional trocou “alertou hoje” por “alertou esta sexta-feira”) e aos 48 aparecem os primeiros falsos, porque “O Presidente da República, António José Seguro,” são 45 caracteres de título formal antes de uma única palavra de notícia.

Duas condições fecham a regra. As publicações têm de estar a menos de 24 horas uma da outra. Dos 88 pares que o sinal do título encontra sem janela nenhuma, todos menos quatro estão a menos de seis horas de distância; os quatro restantes foram lidos, e dois deles — a 8,7 horas e a 18,6 horas — são mesmo o mesmo despacho, enquanto os outros dois estão a 51 horas e são uma citação reaproveitada como manchete dois dias depois. Cortar às seis horas mataria dois pares verdadeiros para tirar dois falsos; às 24 horas ficam os dois e saem os dois, com 32 horas de intervalo vazio para a linha ficar. E o mesmo órgão nunca conta como cópia de si próprio — um jornal que republica o seu próprio texto é um problema nosso, não uma redação a menos. A contagem final é feita por componentes ligadas entre órgãos: se A e B partilham texto e B e C também, conta-se uma redação para os três. É a leitura generosa, e é deliberada — erra sempre a dizer menos redações independentes do que há, nunca mais.

O que foi verificado à mão: os 91 pares que o detetor encontrou no corpus foram lidos um a um — os 91, não uma amostra — e os 91 são o mesmo texto. 84 casaram só pelo título, 5 só pelo lead e 2 pelos dois. O trecho mais fraco que alguma vez casou tem 45 caracteres.

Duas ressalvas, porque nenhuma se vê nos números. A verificação à mão julga “mesmo despacho” sobretudo a partir da mesma prova textual que o detetor usa, por isso é em parte circular; o que ela estabelece de forma independente é que nenhum par junta dois acontecimentos diferentes e que nenhum trecho casado é uma fórmula de casa. E o segundo número é um piso: só se vê cópia entre os órgãos que acompanhamos, e uma redação que reescreveu o despacho por palavras suas conta como redação própria. Isso está certo para o rótulo — escreveu-o mesmo — e quer dizer que este número nunca afirma medir originalidade.

Dois sinais foram experimentados e não estão aqui, escritos para não voltarem a ser propostos como esquecimento. A linha de crédito “(Lusa)” é inequívoca quando aparece e aparece uma vez em 3899 artigos. E a assinatura, que a intuição diz faltar num texto de agência: o feed da RTP não tem campo de autor em item nenhum, por isso o sinal não é fraco, é inexistente.

9. Como classificamos órgãos

Cada classificação exige, no mínimo, duas fontes públicas independentes, por esta ordem de peso:

  1. Dados de audiência do Reuters Institute (Universidade de Oxford) e do OberCom — onde os leitores de cada órgão se colocam a si próprios no eixo esquerda-direita;
  2. Caracterizações em estudos académicos revistos;
  3. Avaliadores internacionais (por exemplo, Media Bias/Fact Check), quando cobrem o órgão;
  4. Posições editoriais documentadas e estrutura de propriedade.

Sem duas fontes, o órgão fica sem classificação — a cinzento, honestamente. Cada classificação publica as suas fontes na página do órgão, com historial completo de alterações. As classificações só mudam em revisões trimestrais ou por correção documentada, nunca em silêncio.

Entre duas fontes e nenhuma há um caso intermédio, e é preciso dizer o que fazemos com ele. Quando já apurámos uma posição e ela ainda não pode entrar em vigor, publicamo-la como provisória: fica escrita no perfil do órgão e no registo de órgãos, marcada como tal nos dois sítios, e não conta em lado nenhum. Nas barras das histórias, nas percentagens por lado, na deteção de blindspots e nas próprias contagens do registo, um órgão com posição provisória entra como não classificado. Calar o que já apurámos não seria mais honesto, seria só mais silencioso; contá-lo seria dizer que a regra das duas fontes é elástica.

Provisória por uma de duas razões, e o perfil do órgão diz sempre qual. Ou as fontes públicas ficam abaixo do mínimo, e então o que falta é evidência — pode nunca aparecer, e enquanto não aparecer a posição não sai dali. Ou o dossier já reúne as duas fontes, está escrito com as citações à vista, e falta assiná-lo. Assinar é o passo em que quem responde por este site lê o dossier inteiro, aceita a conclusão e fixa a data a partir da qual ela vale — é isso que a linha “em vigor desde” diz na página de cada órgão. Sem esse passo uma classificação seria o resultado de ter recolhido fontes, e recolher fontes não é decidir.

Qualquer órgão pode contestar a sua classificação. Enquanto a revisão decorre, a classificação aparece em revisão — outra vez em dois sítios, no registo ao lado da posição e na página do órgão, esta com a data de abertura e o que está a ser reexaminado, escrito por quem abriu a revisão e não pelo sistema. Não aparece na barra de uma história, e isso é deliberado: a barra conta órgãos, e um órgão em revisão continua a contar exatamente como antes. É essa a parte que interessa. A classificação mantém-se em vigor até a revisão terminar, porque retirá-la à espera do resultado seria alterá-la sem a ter revisto — precisamente o que a regra do parágrafo anterior proíbe. A abertura e o fecho ficam no registo de correções, como qualquer outra decisão editorial.

10. Factualidade e acesso

A posição editorial diz de que lado um órgão escreve. Não diz se escreve com rigor — são coisas diferentes, e um jornal de qualquer lado do espectro pode ser rigoroso ou desleixado. Por isso a factualidade é um eixo à parte, com três níveis apenas: alta, mistabaixa. Três, e não sete, porque é até onde a evidência que conseguimos citar aguenta; uma escala mais fina sugeria uma precisão que as fontes não têm.

A factualidade obedece à mesma regra das duas fontes independentes e vive na mesma linha de classificação, com o mesmo historial. Sem dossier, fica por avaliar — nunca por defeito como alta. E aplica-se sempre ao órgão, ao longo do tempo; nunca à notícia que está a ler.

Hoje está por avaliar nos 57, e isso não é uma tarefa em atraso: é o resultado de uma procura. A 07/08/2026 fomos ver quem publica avaliações de factualidade da imprensa portuguesa que se possam citar. A NewsGuard não tem Portugal entre os mercados que cobre. O Media Bias/Fact Check tem ficha de alguns títulos nacionais — encontrámos Público, Observador e Expresso — e o perfil de país dele está atrás de subscrição, pelo que nem a lista completa se consegue ler. Da imprensa regional, que são 27 dos 57 órgãos deste registo, as buscas públicas que fizemos não devolveram nenhuma.

Pôr uma nota em três órgãos e deixar 54 em branco não seria informação. Seria o veredicto de uma organização americana sobre três jornais nacionais e silêncio sobre todos os outros — e o silêncio, ao lado de três notas, lê-se como reprovação. Por isso o eixo fica por avaliar em todos enquanto não houver uma fonte que cubra o país, e esta é a resposta, em vez de uma nota inventada para a coluna não ficar vazia.

Marcamos ainda o acesso de cada órgão — livre, parcial ou só para assinantes — para saber antes de clicar. É um facto verificável, não um juízo, por isso não exige fontes. Onde ninguém verificou, aparece como por verificar: a ausência de marca nunca significa que o artigo é gratuito.

11. Quem é dono de quê

A posição editorial e a factualidade são juízos, com fontes públicas a sustentá-los. A propriedade não é um juízo: é um facto de registo. Está por isso à parte, e cada história soma os órgãos que a cobrem também por grupo proprietário — onze redações podem ser cinco donos, e é a segunda contagem que diz alguma coisa sobre pluralismo.

O nome do grupo é a chave dessa soma e não uma etiqueta. Escrito de duas maneiras, o mesmo dono conta como dois e a linha passa a esconder exatamente a concentração que existe para mostrar. Por isso os nomes são normalizados, e as variações — a designação social completa, a marca comercial, a empresa que explora o título — ficam na nota do órgão, nunca na chave.

Essa nota obedece à regra das classificações: quem controla o capital, desde quando, e com que fontes públicas. Uma página que imprime fontes desta classificação ao lado da posição editorial e afirma a propriedade sem citar nada seria a mesma página com duas medidas. Onde ainda não reunimos fontes, o perfil do órgão diz que a nota falta, em vez de a escrever à mesma. Quantos órgãos estão em cada estado está no registo de órgãos, contado a partir das próprias fichas.

Falta o que fazemos com o que não sabemos, que é a parte que mais facilmente se lê ao contrário. Por apurar não é independente. A maioria dos órgãos do registo não tem grupo atribuído, quase todos regionais, e chamar-lhes independentes seria publicar a afirmação mais forte que se pode fazer sobre uma redação — que não responde a ninguém — a partir de ainda não termos ido ver. Não contam por isso como grupo em lado nenhum: na repartição por proprietário de cada história aparecem à parte, fora da lista, e nunca à cabeça dela por serem muitos.

Há mesmo assim uma coluna no registo que diz Independente, e o que ela quer dizer é o contrário da ausência acima. O registo caracteriza cada órgão numa de três naturezas — imprensa generalista, imprensa partidária, independente — e as duas últimas são afirmações sobre a quem uma redação responde, por isso só as escrevemos com fontes públicas citadas na ficha do órgão, tal como a posição editorial. Independente significa que fomos ver e apurámos que não pertence a grupo nem a estrutura partidária. Um órgão sem grupo atribuído e sem essa verificação não fica independente: fica sem natureza caracterizada, e o registo diz em quantos.

Imprensa partidária é a mais forte das três e não retira nada a ninguém. Um jornal de partido conta na barra de cobertura como qualquer outro, não há interruptor que o esconda, e o partido entra como grupo proprietário — que é o que ele é. O que a etiqueta faz é dizê-lo à vista, na ficha e no registo, para que a barra continue a ser uma contagem e não uma seleção nossa.

Saber a quem pertence um jornal não é um veredicto sobre ele. Um grupo grande não torna uma notícia falsa, e um dono que ninguém apurou não torna nenhuma redação livre. A propriedade documentada entra como um elemento entre outros nas fontes de uma classificação (ponto 9); no resto do site é o que é — informação de registo, ao lado da história, para quem quiser tirar as suas próprias conclusões.

12. Blindspots

Quando uma história com pelo menos cinco órgãos classificados é coberta a 60% ou mais por um só lado — e o lado oposto quase não a toca — o sistema propõe um blindspot. Nada é publicado sem revisão humana, e os dois lados do espectro são sinalizados ao longo do tempo.

Essa última frase é uma afirmação, por isso a página Blindspots está organizada de maneira a que possa ser verificada sem contar nada: duas secções, uma por lado, sempre as duas, cada uma com o seu número ao lado do título. Se numa semana os sinalizadores forem todos para o mesmo lado, a outra secção fica a zero e diz isso. É a leitura honesta e é a que interessa publicar.

Os títulos nomeiam a imprensa e não o leitor — pouco cobertas pela imprensa de esquerda — porque é isso que o sistema conta: órgãos classificados presentes na história. Uma história pode ser sinalizada para os dois públicos, e nesse caso aparece nas duas secções.

Uma história sinalizada diz isso também na sua própria página — por baixo dos números, antes da cronologia — com a nota que o revisor deixou, escrita por ele e não pelo sistema. Não repete ali as percentagens, que estão duas linhas acima; acrescenta o que a barra não diz. Quando a ligação é partilhada, o resumo que aparece leva a marca à frente, porque é a única coisa naquela página que mais nenhum site diz.

13. O meu espectro

A página O meu espectro mostra de que lado tem andado a leitura de quem a abre. É a única coisa no site que fala do leitor e não da imprensa, e por isso é a que tem as regras mais apertadas: a conta é feita inteiramente dentro do navegador, com dados que nunca chegam ao servidor. Não há conta a criar, e a primeira página continua igual para toda a gente — o que cada um segue muda aquela página, nunca esta.

Ao abrir um artigo a partir daqui fica registado, nesse navegador, o nome curto do órgão e mais nada: nem o título, nem a hora, nem a história. Uma lista de o-quê-a-que-horas seria um histórico de leitura, e um histórico de leitura guardado num computador partilhado é um problema que teríamos criado sem nada a ganhar. A posição editorial também não é guardada: é aplicada no momento em que a página é desenhada, para que uma revisão trimestral que mude uma classificação mude com ela o historial de quem lê, em vez de o deixar preso a um juízo que entretanto deixou de valer.

As percentagens só aparecem a partir de dez artigos vindos de órgãos classificados. Abaixo disso um clique vale dez pontos, e a conclusão seria sobre o último artigo aberto e não sobre um hábito. Vale ainda a pena dizer o óbvio: abrir não é ler. Isto é uma pista, não um retrato. O que fica guardado, e como se apaga, está em privacidade.

14. De onde vêm as fotografias

Uma história pode abrir com uma fotografia, e vale a pena ser exato sobre o que ela é. Não é a fotografia que o órgão pôs no seu artigo — essa nunca a mostramos — nem uma fotografia do acontecimento. É o retrato de quem a história trata: uma pessoa ou um partido. Um retrato de arquivo, que diz de quem se fala, não o que se passou.

Vem do Wikimedia Commons, o repositório de media livre da Wikipédia, e só de lá. Chega pela mesma via que tudo o resto aqui — um pedido à interface pública, nada de scraping — e só entra se a licença for livre: domínio público, CC0, ou Creative Commons com atribuição (CC BY, CC BY-SA). O que exija uso não comercial ou proíba modificações fica de fora, mesmo quando existe. Guardamos a nossa própria cópia e servimo-la nós, para a página não ir buscar nada a servidores de terceiros.

A legenda por baixo do retrato não é enfeite: é o que a licença pede. Nomeia o autor, nomeia a licença com ligação ao texto dela, e liga ao ficheiro original no Commons, para que qualquer pessoa confirme a proveniência e os termos. Quando a ficha do Commons não indica autor, a legenda diz isso em vez de inventar um nome.

O rosto do retrato sai de um nome que aparece nos próprios títulos da história, e só é usado se corresponder a uma pessoa ou partido com página na Wikipédia portuguesa — a mesma exigência de duas provas que o resto do site faz, aqui aplicada à identidade. Na dúvida não pomos cara nenhuma: o rosto errado seria pior do que nenhum. Por isso a maioria das histórias não traz fotografia, e isso é o esperado, não uma falha.

15. O que nunca fazemos

Dúvidas ou correções: contacto. Versão em inglês: methodology in English.