espectroquem cobre o quê, na imprensa portuguesa

Pré-registo do inquérito cego

O desenho inteiro, fixado a 15 de agosto de 2026: a pergunta, a escala, os mínimos por órgão, o critério de aceitação e as maneiras de isto falhar. Nessa data não havia painel, não havia formulário, não havia tabela na base de dados e não havia uma única resposta. É o documento que a metodologia refere, e está aqui porque um critério só prova alguma coisa se puder ser lido antes dos números.

Porque é que isto foi escrito antes

Um critério de aceitação decidido depois de se ver o resultado não é um critério, é uma justificação. O medidor automático que tentámos antes deste inquérito foi fixado da mesma maneira e chumbou, e o chumbo está publicado porque tinha de estar. Este documento existe para que o inquérito não possa ter melhor sorte por via da caneta.

Não há segundo pré-registo. O medidor teve dois, e disse porquê. Este tem um: corre uma vez, e a regra de paragem no fim desta página fecha a porta a uma segunda versão desenhada à vista do número.

O que o inquérito é, e o que não faz

Mostra-se a uma pessoa um título — sem marca, sem data, sem ligação, sem imagem — e pergunta-se onde é que aquele texto se coloca no eixo do site, com «não dá para dizer» como resposta válida. Junta-se por órgão ao longo de muitos textos e muitas pessoas. É o método do AllSides, não é um algoritmo, e é essa a diferença que interessa: o que uma pessoa lê num título — que palavra foi escolhida, quem é citado, o que ficou de fora — é precisamente o que uma contagem de palavras não lê.

Propõe um número; não mexe nada. O resultado entra no registo por assinar, fica marcado como provisório, aparece no perfil do órgão com o método à vista e não move barra nenhuma até uma pessoa o ler e assinar à mão. Nenhum programa escreve essa data. É a mesma válvula de sentido único que vale para todas as outras classificações deste site.

Quem serve de controlo

O inquérito é corrido às cegas sobre os órgãos que já estão classificados, misturados com os outros, e tem de os reproduzir. A 15 de agosto de 2026 havia 18 classificados; quatro deles — TSF, Jornal de Notícias, Setenta e Quatro e Avante — não têm um único artigo na base, e O Diabo tem um. Sobram 11 órgãos julgáveis: Correio da Manhã, RTP Notícias, Renascença, Público, SIC Notícias, Observador, Expresso, Diário de Notícias, Sábado, Nascer do SOL e Esquerda.net.

As posições que esses 11 cobrem: 5 centro-direita, 4 centro, 1 centro-esquerda, 1 esquerda e zero direita. O único órgão classificado à direita é O Diabo, e tem um artigo. Esta contagem não é um detalhe de arrumação — decide um dos limites mais abaixo.

Só o título, e porquê

O desenho natural eram duas versões da mesma pergunta, uma com o resumo de entrada do artigo e outra sem, para se ver quanto é que o resumo acrescenta. A medição fechou essa porta. Dos 11 controlos, só 8 publicam resumo: a SIC Notícias, o Nascer do SOL e o Diário de Notícias não, e não é remediável — dois publicam por um formato que não tem sequer campo de descrição, e o terceiro escreve-o 6 vezes em 526 artigos. A versão com resumo teria 8 órgãos, abaixo do piso de 10 que o critério exige, e portanto não pode ser ela a decidir.

Fica fixado, então: mostra-se o título e só o título, a todos os órgãos, mesmo aos que têm resumo. Deita-se fora sinal verdadeiro nos que o têm, e assume-se o que isso custa:

  • O erro é de um só sentido. Menos material só pode baixar a correlação, nunca fabricar uma alta. Um método que passe com o título nu passou com menos informação, e o passe é mais forte, não mais fraco.
  • O reverso disso fica escrito antes de haver número: se chumbar, parte do chumbo é atribuível ao material cortado e não ao método — e isso não poderá ser usado para pedir uma segunda corrida, porque a regra de paragem já o proíbe.

O órgão que decide o valor prático disto tudo é o que tem o material mais fino: o Notícias ao Minuto vale um terço de todo o cinzento das barras e tem 5 150 artigos sem um único resumo, nos cinco canais por onde publica. Não é falha de recolha — a redação não o escreve.

A pergunta e a escala

Uma pergunta, sem preâmbulo e sem exemplo antes, para não ancorar a resposta:

Este título parece-lhe escrito de que lado?
esquerda · centro-esquerda · centro · centro-direita · direita · não dá para dizer

Os cinco pontos são os mesmos do resto do site. «Não dá para dizer» não é centro e nunca é convertido em centro: é registado, entra na taxa de abstenção do órgão e sai da média. Converter abstenção em centro seria encher a barra de centro inventado — pior do que cinzento, e é exatamente a crítica que fazemos a quem o faz.

O que torna o teste cego

  1. Sem marca, sem data, sem endereço, sem imagem, sem secção. Só a linha de texto.
  2. Filtro automático de auto-referência. Um texto sai da amostra se o título nomear um órgão do registo — o seu ou outro qualquer. O filtro é código, corre antes do sorteio e publica-se com o resto; um filtro de cegamento que ninguém possa ver não cega nada.
  3. Ordem aleatória para cada pessoa, com órgãos intercalados, para não haver sequências reconhecíveis pelo estilo da casa.
  4. Sonda de reconhecimento. Cada resposta traz uma caixa opcional «sei de que jornal é». As respostas assim marcadas saem da análise principal e são contadas e publicadas à parte. Sem isto, um painel português reconhece meia dúzia de casas pelo estilo e o cego é decorativo.

Como os títulos são sorteados

Estratificado por órgão e por secção, na proporção do que cada órgão publica, para nenhum ser julgado só pela política. Sorteiam-se os textos que continuam publicados, depois do filtro de auto-referência. A amostra é congelada e registada antes da primeira resposta: um órgão não pode receber textos novos a meio.

Os mínimos por órgão

Cada painelista declara uma vez a sua própria posição no mesmo eixo de cinco pontos. Sem nome, sem email, sem endereço de ligação guardado. Um órgão só recebe número quando a sua amostra cumpre as oito linhas seguintes — falhando uma, fica cinzento.

condiçãomínimo
títulos diferentes julgados≥ 20
leituras utilizáveis≥ 60
pessoas diferentes≥ 4
pessoas que se declaram à esquerda do centro≥ 2
pessoas que se declaram à direita do centro≥ 2
quota da pessoa que mais julgou≤ 40%
quota de um só lado declarado≤ 60%
taxa de «não dá para dizer»50%

Utilizável quer dizer: não é abstenção e não está marcada como reconhecida. A última linha é a que mais interessa. Um órgão que republica despacho de agência não tem enquadramento próprio no título, e o resultado honesto aí é a abstenção, não um número.

O critério

Mede-se a correlação de Spearman entre a média do painel por órgão e a posição já assinada, sobre os controlos que cumpram os mínimos acima. Passa a 0,70 ou mais. É o mesmo limiar, a mesma estatística e o mesmo conjunto de verdade que chumbaram o medidor automático, e a aritmética é o mesmo código.

O ajuste que traduz a média contínua do painel para os cinco pontos do eixo é calibrado contra os controlos, por isso é feito deixando um órgão de fora de cada vez: nenhum órgão participa na sua própria previsão. Publica-se sempre a correlação, o intervalo de confiança e o número de órgãos. O intervalo é obtido por reamostragem de órgãos — não de respostas —, 10 000 sorteios, com semente 20260815 fixada aqui para que a corrida possa ser refeita de fora até ao número exato.

Três pisos, cada um capaz de dar a corrida por inconclusiva

  1. Pelo menos 10 órgãos no teste. Abaixo disso, uma correlação alta por acidente sobre quatro ou cinco órgãos não é validação. Hoje há 11 — a margem é de um órgão.
  2. Teto de 0,80. A verdade tem muitos empates, e empates limitam a correlação máxima atingível mesmo com ordenação perfeita. Para os 18 assinados o teto é 0,958; para os 11 julgáveis, 0,929. A corrida recalcula o teto do conjunto que realmente entrou e imprime-o ao lado do resultado. Se o teto vier abaixo de 0,80, a corrida é inconclusiva — um critério a 0,70 contra um teto de 0,75 testa a estrutura de empates, não o painel.
  3. As duas metades do painel têm de concordar. Divide-se o painel ao acaso em duas metades e compara-se a ordenação de órgãos de uma com a da outra. Abaixo de 0,50 entre metades, a corrida é inconclusiva seja qual for o resultado principal: metades que não concordam entre si não estão a medir nada partilhado, e um acerto nessas condições é coincidência.

Limites que nenhum resultado levanta

Ficam fixados agora porque nascem da composição do controlo, e não do número que vier a sair.

  • O inquérito nunca propõe «direita». Não há um único controlo de direita julgável. Nada calibra o painel nessa ponta, portanto a proposta máxima é centro-direita. Um painel que ache um órgão mais à direita do que tudo o que lhe foi mostrado não tem como o provar.
  • Uma proposta «esquerda» assenta num só controlo — o Esquerda.net, com 53 artigos — e vai escrita com essa ressalva no dossier, sempre.
  • Órgão de secção única temática não recebe número do eixo geral. Vale para o ECO, o Jornal de Negócios e o Jornal Económico, que só publicam economia: colocar um jornal no eixo político a partir de títulos de economia é a inferência que o registo já proíbe por escrito. Um órgão regional é caso diferente e fica dito porquê — regional é uma geografia, não um assunto, e um canal regional traz política, sociedade e economia locais.
  • Abstenção de metade ou mais mantém o cinzento. Sem exceção e sem arredondar para baixo.

Até onde isto pode chegar, no máximo

Peso de cada órgão sem classificação no cinzento das barras, medido a 15 de agosto de 2026.

Ao alcance do inquérito

Notícias ao Minuto34,1%
Notícias de Coimbra8,5%
24notícias5,0%
O Minho4,9%
Postal do Algarve3,8%
Rádio Campanário2,4%
Diário As Beiras2,3%
soma61,0%

Fora do alcance, e a razão está escrita acima

Jornal Económico9,4%
ECO8,6%
Jornal de Negócios7,8%
soma25,8%

A CNN Portugal, com 7,3%, não está em nenhuma das duas listas: tem dossier escrito com fontes públicas e espera assinatura, não inquérito.

Teto honesto: se o critério passar, se todos os órgãos ao alcance cumprirem os mínimos e se tudo isso for assinado, o cinzento cai de 43,2% para 16,9%; com a CNN Portugal assinada, para 13,7%. São três «ses» e o número é um limite superior, não uma previsão. Um quarto de todo o cinzento não é alcançável por este caminho nem por nenhum outro que já se tenha tentado.

O que esperamos que aconteça

Registado antes de correr, para não poder ser reescrito depois: duas hipóteses em cinco de passar. O medidor automático chumbou no mesmo material, e o diagnóstico publicado na metodologia diz que os títulos dizem sobretudo de que assunto um órgão fala. A aposta é que uma pessoa lê no título o que a contagem de palavras não lê.

Contra a aposta, e é forte: o órgão que decide o valor prático disto — o Notícias ao Minuto, um terço do cinzento — é o que tem o material mais fino de todos, e boa parte do que publica é despacho de agência, onde não há enquadramento de casa nenhum para encontrar. É bem possível que o critério passe e o Notícias ao Minuto fique cinzento à mesma, por abstenção. Nesse caso o inquérito terá funcionado e servido de pouco. Fica escrito antes, para não poder ser contado como vitória depois.

Regra de paragem

Corre uma vez. Se não passar, o inquérito é arquivado, publica-se o chumbo como se publicou o do medidor, e o cinzento passa a ser definitivo — o que muda é o que a barra promete, não a barra. Não há segunda amostra, não há painel alargado à procura de um número melhor, não se mexe nos mínimos nem nos pisos depois de ver o resultado, e não se troca o conjunto de controlo por um subconjunto que tenha dado melhor. Sem esta regra, «mais uma tentativa» repete-se até sair 0,70.

Uma previsão registada antes do facto

A CNN Portugal foi colocada em centro-direita a 15 de agosto de 2026, por duas fontes independentes, e está provisória. Não entra no conjunto de controlo e não conta para o critério. Se o painel a colocar em centro-direita, é corroboração escrita antes do facto; se a colocar noutro sítio, é contra-evidência e vai para o dossier. Escrito agora precisamente para não poder ser reinterpretado depois.

O que se publica, e quando

Está publicado desde já: este protocolo, e o andamento por órgão — quantas leituras e quantos títulos, contra os mínimos, e o que falta a cada um.

Sai tudo de uma vez, no fim, com o resultado, passe ou chumbe: o filtro de cegamento, a amostra congelada, a tabela de respostas em bruto com as pessoas como números opacos e a posição que declararam, os agregados por órgão e por título, e o cálculo. O painel nunca é nomeado. Se não for refazível de fora, não se publica número nenhum — é o mesmo «medido ou nada» do resto do projeto.

Falta de propósito, enquanto corre, o que o painel está a responder sobre cada órgão. Quem soubesse que um jornal está a sair centro-esquerda leria o título seguinte contra esse número, e o inquérito passaria a medir-se a si próprio.

O que ainda está travado

A regra publicada na metodologia diz que uma classificação exige no mínimo duas fontes públicas independentes, ou o órgão fica sem classificação. Um número saído deste inquérito não tem fontes públicas citadas. Tem-nos a nós. Não há maneira de o pôr numa barra sem alterar essa regra e as duas páginas onde ela está publicada, em português e em inglês. Este documento não altera nada disso e não pede autorização para nada: fixa o método e o critério. Construir e validar não toca no site, por causa da válvula de sentido único; a entrada em produção está travada até essa decisão existir, e é do dono do site.

A segunda coisa que este desenho obrigou a mexer foi a privacidade, e antes de existir código. O site promete a quem lê que nada do que o navegador guarda é enviado, e um inquérito envia. A saída que mantém a promessa verdadeira é separar leitor de painelista: quem lê o site continua a não enviar nada, o inquérito é uma página à parte onde ninguém entra sem querer, e a chave que ela escreve está nomeada na página de privacidade como as outras duas, com o aviso do que se guarda antes da primeira pergunta.

Numa linha

O inquérito só ganha o direito de propor uma posição para os órgãos sobre os quais ninguém escreveu nada se, primeiro, reproduzir com 0,70 ou mais a ordenação dos 11 órgãos já assinados que é possível julgar, lendo só títulos, com o painel equilibrado e cego, e com os três pisos cumpridos. Não reproduzindo, fica na gaveta, publica-se o chumbo, e o site continua honesto a cinzento.